13 outubro 2015

Escreva Lola Escreva



Lola Aronovich é dona do maior blog feminista do Brasil, que está no ar desde 1998. Como a própria Lola descreve: “Neste bloguinho não acadêmico falo de feminismo, cinema, literatura, política, mídia, bichinhos de estimação, maridão, combate a preconceitos, chocolate, e o que mais me der na telha.”.

Lola ainda possui um livro publicado (Escreva Lola Escreva – Crônicas de Cinema), é doutora em literatura em língua inglesa pela UFSC – Universidade Federal de Santa Catarina – e “na definição de um troll, ingrata com o patriarcado”. O blog nasceu com o intuito de falar sobre cinema, porém foi tomando características do porta voz do feminismo.

Em sua atuação como feminista, Lola recebe diversas ameaças e ataques por grupos de extremo ódio as feministas. Esse ano ela já registrou vários boletins de ocorrência e ainda está processando o apresentador e humorista Danilo Gentilli por utilizar de uma foto manipulada sem a sua autorização.

Ser feminista não é fácil. Ser feminista e ter uma rede social – um blog – que alcance grandes públicos é mais difícil ainda. Lola em seu blog expõe sua opinião sempre de forma aberta, sincera e crítica, e também, “abre” para que seus leitores possam colaborar no blog, dando opiniões ou até mesmo relatando fatos ocorridos com os mesmos. O blog possui uma linguagem voltada mais para o jornalismo literário, em especial para as crônicas jornalísticas.

Em janeiro de 2015, Lola concedeu uma entrevista para a revista Fórum. Trecho abaixo:
Fórum – Lola, você é sem dúvida a feminista brasileira com mais visibilidade na internet. Como se sente ao ocupar tal posição? É algo que deseja? 
Lola Aronovich – Ser autora do que parece ser o maior blog feminista do Brasil tem seu lado bom e ruim. O ruim é que você atrai todo tipo de maluco que não sabe nada de feminismo. Você passa a ser a única feminista que ele “conhece”, e no fundo ele nem lê seu blog. Ele só assume que você é uma odiadora de homens. E muitos desses caras realmente querem te calar, te machucar. O lado bom é o reconhecimento, porque manter um blog com atualizações diárias, e sem viver disso, sem qualquer equipe, é realmente difícil. Portanto, você passa a ser uma referência, mesmo que não queira. E tem que tomar mais cuidado, ter mais responsabilidade. Em compensação, você é chamada pra várias palestras e acaba conhecendo muita gente bacana e competente. Na verdade, nunca tive qualquer ambição de fazer um blog famoso. A única ambição era fazer um blog em que eu pudesse falar sobre o que quisesse. 
Fórum – Sua visibilidade também te traz situações ruins, como as ameaças e ataques online que sofre de masculinistas. Há quanto tempo vem sofrendo essas ameaças e como elas chegam até você? 
Aronovich - Exato, eu adoraria não receber esses ataques. Trolls eu tenho desde quando comecei o blog, em janeiro de 2008. Acho que uns dois meses depois eles já estavam lá na caixa de comentários, cumprindo ponto. E são sempre iguais: sempre homens, brancos, cis, héteros, misóginos, racistas, homofóbicos, gordofóbicos, e de extrema-direita. Mas no começo eram poucos, tanto que só passei a moderar comentários a partir de junho de 2012. As ameaças, porém, começaram bem antes, no início de 2011. Algumas vêm por e-mail e Twitter (felizmente, não estou no Facebook); outras, em comentários não aprovados no blog; outras, em sites de ódio. Muitas aparecem em chans. Eu nunca saberia da existência de um chan dos mascus sanctos [o grupo mais extremista e criminoso entre os masculinistas] se o dono do chan não enviasse sempre o endereço pra mim. Ou seja, ele quer que eu acompanhe o chan para acompanhar as ameaças, que são praticamente diárias. 
Fórum – Em algum momento já temeu realmente por sua segurança e integridade física? Já teve motivos para achar que os masculinistas e grupos misóginos de fato fariam algo contra você? 
Aronovich - É difícil não se deixar afetar quando são tantas ameaças. Eles espalham por toda a internet meu endereço residencial, meu telefone, põem foto da fachada da minha casa, que eles pegam no Google Satellite. Eu fico receosa porque já aconteceu. O massacre de Realengo foi um ato causado por um masculinista. E, no mundo, principalmente nos EUA, há vários casos de misóginos que cometem feminicídios. Eu temo que um desses rapazes que tem uma vida tão miserável, tão solitária e sem sentido, queira se exibir pros outros me matando. Eles estão quase competindo pra ver quem irá pichar o muro de casa. E, às vezes, quando vou dar alguma palestra, recebo ameaça de que eu serei um alvo-fácil naquela universidade. Então, de certa forma, isso entra na sua cabeça. Eu não deixo de fazer nada por conta das ameaças, não perco meu sono, não tenho medo, mas me pego às vezes olhando pro lado ao andar na rua, sabe? Outro dia li a Jessica Valenti, uma feminista americana famosa, dizer que, por causa das ameaças, ela sempre tem um pouco de receio quando algum homem quer abraçá-la após uma palestra. Eu não chego a tanto, mas às vezes penso: “E se realmente acontecesse? E se uma das centenas de ameaças que recebo se concretizasse? Imagina que absurdo ser morta por ter um blog feminista!”. 
Fórum – Diante de um contexto tão sério, você acha que recebe apoio suficiente de outras feministas e grupos militantes? Além das feministas, algum grupo de esquerda manifesta apoio a você? 
Aronovich – Infelizmente, tem muita feminista e muitos coletivos feministas para os quais o lema “mexeu com uma, mexeu com todas” só vale para as amigas. Tem feminista que acha bem feito eu ser ameaçada; afinal, quem mandou ter um blog conhecido, quem mandou mexer com mascu? Parece ridículo, mas não é só por ser feminista que a gente se torna uma pessoa mais solidária, com mais empatia. E talvez a minha postura diante das ameaças, de não me deixar amedrontar, faça com que muitas feministas não se preocupem. Recebo apoio individual; coletivo, só muito raramente, tanto de feministas quanto de grupos de esquerda. Recebo apoio na internet de políticas importantes, como Manuela D’Ávila, Maria do Rosário, Luciana Genro. E isso é muito bom, claro, sentir que você não está sozinha. Hoje (9/1), a Juliana Lobo, uma moça com 250 seguidores, organizou um tuitaço chamado #PorqueNãoMeCalo, para apoiar a mim e a todas as outras mulheres que são atacadas virtualmente. E tanta gente participou que a tag foi parar nos Trending Topics. Nunca esperava tamanha adesão. Foi uma surpresa mesmo, sinal de que nosso ativismo é forte, que unidas podemos muito. Acho que nunca me senti tão apoiada na vida.

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