04 agosto 2017

“Sabem o que o antigo dono da mais famosa casa gótica de SP falava abertamente? ‘Para gótico, qualquer porcaria serve’.” Henrique A.Kipper


Henrique A. Kipper, 47 anos, morador de Guarulhos/SP, está desde 1990 frequentando a cena Gótica de São Paulo. Seu primeiro contato com esse segmento cultural em São Paulo aconteceu atrás da Igreja de Santa Cecília. “Comecei a frequentar a cena gótica de São Paulo exatamente em 1990, quando mudei para São Paulo para trabalhar no jornal Folha da Tarde. Logo depois que cheguei uma garota me disse para ir de preto a uma casa noturna atrás da Igreja de Santa Cecília, onde ficava um casarão, hoje demolido, o Espaço Retrô 1. Dali para o primeiro Madame Satã foi um passo e o resto é história.”, nos conta. Ilustrador, artista gráfico e professor, o mesmo é responsável por vários projetos como: GOTHIC21, Gothic Station (revista e site), Mondo Muerto (quadrinhos), Happy House in a Black Planet (livro), e diversos outros fora da cena gótica.

Sempre que vejo matérias sobre seus trabalhos, a exemplo da revista, os autores costumam citar que você está há “duas décadas” dentro de um mesmo segmento subcultural. Essa informação procede mesmo? Como é estar a tanto tempo dentro de uma subcultura, vendo todo seu crescimento e evolução?

Sim, comecei a frequentar a cena gótica de São Paulo exatamente em 1990, quando mudei para São Paulo para trabalhar no jornal Folha da Tarde. Logo depois que cheguei uma garota me disse para ir de preto a uma casa noturna atrás da Igreja de Santa Cecília, onde ficava em um casarão, hoje demolido, o Espaço Retrô 1. Dali para o primeiro Madame Satã foi um passo e o resto é história.  É muito bom ver o quanto melhoramos e evoluímos neste período todo.  O ECA proibiu menores de frequentar as baladas, e as piores casas hoje são melhores do que as antigas aqui em São Paulo (a partir da virada do século as casas foram melhorando).  Hoje shows internacionais acontecem com certa regularidade, algo impensável ou raro antes. Com o advento e popularização da internet as pessoas tem muito mais informação em todas as áreas.   Fico muito satisfeito de ter ajudado um pouco nesse processo.

Vou ser sensacionalista e perguntar: como é fazer parte da representatividade escassa da Cena Gótica no Brasil? Com o site, agora com a Revista e os eventos para a subcultura que você mesmo organiza.

Não me parece escassa. O problema é onde e como é feito esse censo dessa população gótica. Se você fizer pesquisa sobre a cultura chinesa em um shopping Center de Hong Kong ou Pequim você vai concluir que toda população chinesa é jovem e ocidentalizada. Hoje, se você fizer censo da população brasileira nos shoppings, vai concluir que a população diminuiu.  Da mesma forma se você faz censo de população gótica em shows ou balada vai ter um resultado com a mesma distorção. A vivência dos góticos não se dá apenas em shows e baladas em grandes cidades.  “O Rolê não é a Cena” (risos). Muitos não saem em festas. Outros já têm família e trabalho e mantém sua identidade e participação em outros ritmos. Outros vivem em cidades pequenas sem cenas (e tem toda identidade e informação do estilo porque a internet permite uma vivência real e de qualidade hoje).

No mais, me sinto privilegiado por viver em uma época em que posso me comunicar e de alguma forma ajudar toda essa população gótica espalhada pelo Brasil. Costumo dizer que espalhar informação é como jogar mensagens em garrafas no mar da internet, e volta e meia você fica feliz por ver que a garrafa chegou a alguma ilha e mensagem teve algum resultado.


Desde 2004 que você fala sobre a Cena Gótica, e a difunde. De onde surgiu essa vontade de trazer informação e eventos que poderiam representar e informar a respeito da Subcultura Gótica?

Site Gothic Station
Eu e minha esposa Flávia Flanshaid começamos a frequentar a cena gótica em SP respectivamente em 1990 e 1995 e ambos enfrentamos os mesmos problemas: era extremamente difícil conseguir informação sobre qualquer coisa, os zines não ajudavam, pois traziam informações muito fragmentadas, e os mais velhos eram extremamente elitistas e tratavam mal os novatos. É o que chamo de comportamento de “seita secreta” (texto aqui ó!) que infelizmente ainda existe em alguns circuitos. Assim, algo que tanto eu quanto ela tínhamos, claro que precisávamos tratar bem a próxima geração, facilitar e organizar uma base de informação de forma inteligível e estável (pois vi várias gerações se informarem e na passagem de geração tudo se perder na seguinte) e que organizaríamos nossos eventos recebendo as pessoas da forma que gostaríamos de ter sido recebidos quando éramos nós os novato. Por isso fazemos o que fazemos.

É preciso abandonar a ideia romântica de seita secreta ligada ao underground. O alternativo não é mais uma religião secreta, não há o que esconder. A cena gótica internacional teve um boom internacional no final dos anos 90 exatamente quando perceberam que havia uma mídia gratuita e possível de ser individualizada e usada a FAVOR da diversidade.  

Assim a ideia estranha seria não disponibilizar toda informação subcultural de forma clara e aberta.   Hoje membros de diversas subculturas pelo mundo sabem que micro mídia e microcomércio especializados são formas de fomentar a diversidade cultural, artística e identitária.

Através do Mondo Muerto você satiriza a cena Gótica Brasileira, mas por que criar uma história em quadrinhos que satirize a Subcultura no Brasil?

Em dado momento percebi que nós góticos éramos os “portugueses” das piadas de todo mundo, desde o mainstream até outros segmentos do alternativo. Aí concluí que era hora de fazer piada do ponto de vista dos góticos em relação aos outros. Algo como o português fazendo piada de brasileiro ou o papagaio fazendo piadas sobre nós (risos).

Mondo Muerto
Quando você vê a generalização dos termos como Gothic Pastel, Gótica Suave ou até mesmo o Metal Gótico, o que pensa sobre essas outras vertentes que vem criando caminhos na Subcultura Gótica?

As discussões musicais raramente são sobre música, geralmente são sobre quem detêm poder, status ou pode julgar ou selecionar quem entra.  No caso de Gothic Pastel, na verdade nunca vi uma real, nem nenhuma me escreveu. Então é uma pergunta que não sei como responder. Quanto ao gothic metal, o fenômeno que aconteceu no Brasil foi diferente do que aconteceu na Europa. Lá Na Europa havia uma cena gótica estabelecida, e o Gothic Metal foi uma moda exagerada, mas não ameaçou a extinção dos outros segmentos ou da identidade histórica de toda a cena gótica e darkwave. No Brasil foi uma hecatombe porque estávamos em um daqueles momentos, como citei na resposta sobre transmissão de informação entre gerações, em que havia um vácuo de informação, pois esta se perdera. Então o Gothic Metal entrou como o novo e único Gótico verdadeiro com teorias sobre origem do estilo. Era muito engraçado, pois lá por 2006 ou 2008 o pessoal do GM não sabia por que era hostilizado: lembro ter tido um longo debate para explicar para os donos do site Spectrum que JÁ EXISTIA uma subcultura anterior com o nome de gótico, existiam góticos e darkwavers e que havia outra linha evolutiva natural dentro da subcultura com bandas atuais fazendo cosias atuais, e eles não tinham a menor ideia! Tanto que a partir do momento que ficaram sabendo mudaram de atitude e colocaram uma explicação para seus leitores “olha, existe outra coisa, a subcultura gótica...” (risos). Eu colaborei em alguns textos para eles antes, pois achei uma atitude super madura considerando a belicosidade dos debates na época.  Posteriormente desenvolvemos o site Gothic Station e lancei meu livro Happy House. Exatamente com o intuito de evitar que acontecesse outro vácuo de informação como esse que permitiu esse estrago da moda gothic metal entre 2002 e 2008 aproximadamente.  A moda passou, e até agora tem funcionado razoavelmente. É um material simples, mas mantém o debate em um nível mínimo, não temos mais que reinventar a roda a cada quatro anos.  Hoje muitos góticos que curtem as vertentes darkwave, gothic rock, synth, medieval, etc, curtem também algo metal ou gothic metal, ou pop, ou emo, etc. Mas sabem que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa.

Tem bastante tempo (muito tempo mesmo!) que ouço falar do projeto Absinthe, um projeto famoso na cidade de São Paulo (vou dizer aqui e agora que é meu sonho de unicórnio Dark ir nesse evento, ou que haja um parecido em Brasília). Como surgiu a ideia de um evento específico para a Cena em São Paulo?

Há! Tenho que contar que periodicamente encerramos um evento para iniciar outro com o mesmo espírito, mas renovado. Assim, depois do Theatro dos Vampiros (2004 – 2010) em que eu fui sócio e Flávia co-fundadora, eu e Flávia criamos o Absinthe (2010-2015) e desde 2016 realizamos o GOTHIC21. Teremos muito prazer em receber você em nosso evento.

Já expliquei em uma resposta anterior algumas de nossas motivações para produzir eventos na cena gótica, mas há alguns detalhes extras. Alguns eventos que existiam até 2004 eram muito fixados nos anos 80, ou não respeitavam os góticos como nós achávamos que nós deveríamos ser respeitados.

Sabem o que o antigo dono da mais famosa casa gótica de SP falava abertamente? "Para gótico, qualquer porcaria serve".

Por isso eu e muita gente temos trabalhado tanto nos últimos 15 anos para levantar a autoestima da galera mostrando que nós, como góticos, merecemos respeito, qualidade e não ser explorado e ameaçado em porões precários, casas sem segurança ou sendo mal atendidos. Porque é o pensamento "alternativo = udigrudi precário e du mau" que mantém nossa cena no atraso. Se queremos uma cena nacional que se desenvolva com muitas baladas, festivais e shows cheios, com bandas vendendo CDs, lojas vendendo seus produtos e artistas e artesões vivendo do seu trabalho, precisamos superar essas visões de alternativo que não fazem nenhum sentido no século XXI. 

Temos potencial e população aqui para fazer melhor que México, Chile ou mesmo boa parte dos países da Europa. Basta deixarmos de lado ideias arcaicas de "underground" do século passado.

Tem uma equipe disponível com você para dar suporte e até mesmo apoio na idealização dos projetos que você administra? Ou é só você?

Quem me dera ter uma grande equipe faria muito mais coisas! Hoje nos eventos conto com um grupo pequeno mas de extrema confiança  que já nos acompanha há anos.  Além de minha esposa Flávia Flanshaid, que é também produtora e DJ, nos acompanham nas festas o DJ Ed Viesczy e nossas queridas hostesses Astarty e Lane. Alguns amigos nos apoiam pontualmente também. Já nas publicações impressas ou digitais, eu acabo realizando toda parte gráfica sozinho, além do departamento de vendas, sac, rapaz do cafezinho e office-boy (risos). Na revista temos vários colaboradores de texto, como vimos na número 1 com a Sana Skull e a Adriana Amaral. Novos colaboradores serão conhecidos na número 2. E o financiamento da revista depende de centenas de pessoas que apoiam pelo sistema de crowdfunding. Obrigado a todos!

Agora vamos chegar à pergunta mais importante da entrevista. Por que depois de tantos anos trabalhando com material de primeira qualidade no site Gothic Station, você decidiu criar uma revista também de mesmo nome e segmento: Gothic Station?

Foto/Reprodução: Moda de Subculturas (Revista 1)
Primeiro, fazer uma revista impressa, essa é a primeira ideia, se faz algo apenas online por falta de recursos. O site é importante, funciona muito melhor como complemento de uma publicação periódica. Também já tenho muito material online, como meu livro Happy House e vários quadrinhos. Mas pesquisas pelo mundo mostram que as revistas digitais não caíram no gosto do público, pesquisas internacionais mostram que as mais bem sucedidas chegam ao máximo a 5% da tiragem de suas versões impressas (distribuídas por mala-direta/correio).  Com o crescimento de acesso a internet por smartphones as revistas digitais devem decair mais ainda.

Também cresci no meio de imprensa e produção gráfica, no qual atuo desde 1988. Então um lado é que tenho esse fetiche por coisas impressas. Por outro lado, vendo revistas desse tipo na Europa e Estados Unidos, resolvi dizer para os góticos brasileiros: vocês também merecem isso e muito mais. Não há por que termos coitadismo e vira latismo em relação a cenas de outros países.  É uma questão de autoestima de nosso grupo social também, além da questão de informação.

Você imaginava que algum dia decidiria organizar uma revista com conteúdo alternativo? Esperava que o site saísse do meio online para tornar-se algo físico (vamos dizer assim)? Ou a revista e o site são apenas complementos um do outro?

Sim desde sempre, não fiz antes porque a produção gráfica era mais caro e não havia formas de financiamento coletivo. A partir do momento em que o preço de gráficas se tornou um pouco mais acessível, e o sistema de financiamento coletivo já é algo tradicional, não vejo porque não fazer.

Teve alguma revista que te inspirou a idealizar e colocar em prática a Gothic Station? Ou tudo é “ideia original do Henrique Kipper”?

Ninguém inventa nada do zero. O primeiro conceito da revista é que deveria ser uma mistura de várias revistas gótica, mas não só uma revista musical (como a Orkus ou Zillo alemãs) e deveria misturar questões de comportamento e artes (como a Elegy francesa e ibérica ou a Gothic Beauty americana).  O segundo conceito é que somos brasileiros e devemos abordar também questões que são específicas do Brasil. Ao mesmo tempo pensei ser essencial uma abordagem jornalística e de informação de base, junto com informações atuais, pois nossa cena atem características diferentes do resto do mundo. Então acho que tem um pouco de Superinteressante Gótica no projeto (risos). Algo que eu tenho certeza é que não quero fazer uma versão brasileira das revistas europeias, isso não faria nenhum sentido.

Muitas revistas, físicas, têm chegado ao fim. O que tem deixado muitos alternativos tristes, pois é parte do segmento que está acabando. Teve alguma dúvida sobre que tipo de revista queria? Pergunto no segmento de ser online ou físico.

Não me parece que o segmento esteja acabando, pelo contrário. Como já comentei nas perguntas anteriores o que diminuiu desde a crise de 2015 principalmente foi à frequência das pessoas em atividades do tipo festa e shows (mas isso atingiu praticamente todos os segmentos, mesmo no mainstream).   

A única dúvida foi (e é) como fazer algo em um momento em que tanto brasileiros (logo góticos e simpatizantes) estão desempregados, ou sofrendo com esta longa crise econômica? Quanto à questão de suporte físico ou digital há dois pontos: é importante ter uma versão digital, mas pesquisas internacionais mostram que revistas digitais não pegaram e não vendem mais do que 5% da versão impressa.  A maior parte de vendas é assinatura e pelo correio. Ao mesmo tempo com a migração do acesso online para os dispositivos móveis, ficou difícil ler, e se perdeu também a cultura de rede de links. Isso aponta para uma revitalização do material impresso paralelo a redes informacionais digitais. 

Revista 2

Como tem sido criar e elaborar matérias, convidar uma equipe, fazer editorial, etc, para que a revista tenha um bom conteúdo e uma ótima visualização dentro da Cena Gótica?

Essa é parte mais fácil e prazerosa do trabalho. O trabalho de divulgação, vendas, office-boy (risos) e postagens, acabam tomando um tempo muito maior do que isso.

Vocês têm divulgado bastante a revista. Como está o andamento? Tem sentido reciprocidade do público que quer alcançar para com a Gothic Station?

Sim! As pessoas reagiram com grande surpresa positiva ao receber a número 1 em mãos, pois não esperavam um material com essa qualidade gráfica e editorial. Temos grandes colaboradores e novos estão se agregando a número 2.

A Gothic Station terá publicação mensal, bimestral, semestral, ou vocês ainda estão se organizando para ver qual será o melhor?

A periodicidade inicial está planejada para três ou quatro edições anuais, mas a redução ou aumento dessa periodicidade depende da resposta de vendas e apoios nas campanhas. 

Henrique, quer me “contratar” para fazer parte da sua revista não em? Brincadeirinha só para descontrair (risos). Mas, essa não é a pergunta com a qual vou encerrar nossa entrevista (que de pequena não tem nem as perguntas). Bate bola rapidão Henrique: quando digo Gothic Station qual é a primeira palavra que vem a sua mente?


Gostaria muito de contratar você, assim que puder contratar alguém (risos).  Primeira palavra?  Eu fiquei entre amor e conhecimento, mas acho que amor vem antes, pois alguém só vai buscar conhecer depois aquilo pelo qual se apaixonou antes. Como nas relações.

Links para a revista: AQUI AQUI AQUI AQUI

6 comentários:

  1. Adorei!!
    É um prazer imenso trabalhar em parceria com o Kipper na revista Gothic Station, fora que aprendo muito com ele nas nossas conversas! :D
    Parabéns pela entrevista <3
    Bjs!!

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    1. Obrigada Sana! Henrique Kipper é um cara muito gentil em me fornecer um pouco do seu tempo e sua opinião.

      Até mais! O/

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  2. Esse cara é muito foda! Eu apoiei a primeira e tô super ansiosa esperando a segunda chegar!
    Adorei a entrevista! Muito oba mesmo! Parabéns aos envolvidos! Tanto as perguntas quanto as respostas me encantaram!
    bjo!!

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