15 setembro 2015

Feminismo para quê?


Eu sempre gostei de determinadas discussões, porque acredito que elas podem mover fronteiras e ajudar no crescimento de novas perspectivas – pelo menos em alguns casos as pessoas conseguem refletir sobre isso. E há pouco tempo, eu conheci uma página chamada “Moça, não sou obrigada a ser feminista”. Eu achei interessante o título, porque realmente ninguém é obrigado a ser anarquista, hippie, petista, tucano, narcisista, nazista, feminista, homofóbico, gay, etc... E por ai vai.


Mas, as postagens, em minha opinião, não condizem com o que eles querem realmente colocar em pauta. Acredito que tem muitas feministas querem que as pessoas “engulam” a ideologia, mas elas não são obrigadas - eu não sou obrigada a engolir o ódio que eles pregam as feministas. Então eu fui debater, e escutei: o feminismo é um movimento “feminazi” que aprovou o aborto, o feminismo é um movimento “feminazi” que diz que preferimos não “lavar louça” – como se esse fosse algum tipo de “bordão subliminar” feminazi - o feminismo é um movimento feminista antidemocrático e ditatorial (é sério isso produção?), o feminismo é um movimento de mulheres que odeiam os homens, o feminismo é um movimento que existe não “sei pra quê?”, o feminismo é um movimento que passará (nas palavras deles é modinha), o feminismo é um movimento que estuda Karl Marx (sim, feministas, não dá para dizer em geral, estudam um pouco de Karl Marx!), o feminismo é um movimento para mulheres mal amadas que precisam de “rola”, e por ai vai... É complicado.

O que pude perceber: os argumentos são sempre os mesmos, e quando chamamos para uma discussão bem inteirada e bem feita eles “riem” da nossa cara e dizem que não precisam disso, ai vamos ao ponto em que estão alienados e ignorantes em relação ao que é pregado ali e eles dizem que nós somos as ignorantes e alienadas e que preferem lavar louça. Parei!

No fim de tudo, eu deixei de discutir. Sinceramente, eu acabei até me “estressando” mesmo. Mas, vamos aos pontos pétreos da discussão: 

“Feminismo é um movimento feminazi que aprovou o aborto”:

Art. 142°: Não é punível a interrupção da gravidez efetuada por médico, ou sob a sua direção, em estabelecimento de saúde oficial ou oficialmente reconhecido e com o consentimento da mulher grávida, quando, segundo o estado dos conhecimentos e da experiência da medicina:

Constituir o único meio de remover perigo de morte ou de grave e irreversível lesão para o corpo ou para a saúde física ou psíquica da mulher grávida;

Se mostrar indicada para evitar perigo de morte ou de grave e duradoura lesão para o corpo ou para a saúde física ou psíquica da mulher grávida, e for realizada nas primeiras 12 semanas de gravidez;

Houver seguros motivos para prever que o nascituro virá a sofrer, de forma incurável, de grave doença ou malformação, e for realizada nas primeiras 16 semanas de gravidez; ou

Houver sérios indícios de que a gravidez resultou de crime contra a liberdade e autodeterminação sexual, e for realizada nas primeiras 12 semanas de gravidez.

A verificação das circunstâncias que tornam não punível a interrupção da gravidez é certificada em atestado médico, escrito e assinado antes da intervenção por médico diferente daquele por quem, ou sob cuja direção, a interrupção é realizada.

O consentimento é prestado:

Em documento assinado pela mulher grávida ou a seu rogo e, sempre que possível, com a antecedência mínima de 3 dias relativamente à data da intervenção; ou

No caso de a mulher grávida ser menor de 16 anos ou psiquicamente incapaz, respectiva e sucessivamente, conforme os casos, pelo representante legal, por ascendente ou descendente ou, na sua falta, por quaisquer parentes da linha colateral.

Se não for possível obter o consentimento nos termos do número anterior e a efetivação da interrupção da gravidez se revestir de urgência, o médico decide em consciência face à situação, socorrendo-se, sempre que possível, do parecer de outro ou outros médicos. 
A Alteração proposta 
Além dos casos e prazos previstos no Art. 142°, a despenalização total da interrupção voluntária da gravidez quando realizada, por opção da mulher, nas 10 primeiras semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado.

É uma lei que está sendo promulgada na câmara ainda. Isso não quer dizer que “feminazis” aceitam o aborto, realmente, o argumento de que o corpo é da mulher e ela sabe o que faz é valido. Mas, eu sou feminista, e não aceito o aborto quando é parte de uma irresponsabilidade do casal. Já vi e volto a ressaltar: homens abandonarem filhos e mulheres matarem, ou mulheres abandonarem filhos e homens matá-los. Está na veia da sociedade em geral propagar o mal e as mulheres que fazem o aborto não são, necessariamente, “feminazis”. E se as pessoas não querem acreditar que a humanidade pode ser ruim, infelizmente, essa é a realidade. Existem mulheres que não querem ter filhos e depois que não usam os métodos contraceptivos acabam engravidando, não querendo elas abortam. A lei foi promulgada para que essas mulheres não precisassem correr riscos em clínicas clandestinas.

“O feminismo é um movimento “feminazi” que diz que preferimos não “lavar louça” – como se esse fosse algum tipo de “bordão subliminar” feminazi”: alguns anos atrás se dizia que lugar de mulher era na cozinha ou na casa, o que incluía qualquer serviço doméstico ou ter que cuidar dos filhos, só que era essa a única obrigação da mulher. A luta foi para que pudéssemos fazer as mesmas coisas que os homens faziam. Conseguimos e agora lutamos por igualdade, “mas a igualdade já existe”, não há igualdade quando dizem que um homem não pode aprender a cozinhar ou cuidar de casa porque é feio e é a mulher que tem que fazer tudo, não há igualdade quando um homem é considerado “chefe de cozinha” e uma mulher só de “cozinheira” (acredite já foi feito matéria e existe essa diferença e o porquê dela!), não existe igualdade quando uma mulher é estuprada e é tratada como se ela tivesse causado o estupro, não existe igualdade quando o esposo mata a mulher “por amor” (“mas a mulher faz o mesmo”, a ser humano é vítima do próprio sistema que cria, e mulheres não é legal vocês matarem seus esposos e homens não é legal vocês matarem suas esposas), e por ai vai. É em bases assim que se luta nada para desmoralizar ou vitimar o homem, mas apenas acabar com o sistema machista que nos rege.

“O feminismo é um movimento feminista antidemocrático e ditatorial (é sério isso produção?)”: É sério isso produção?

Antidemocrático: contrário a democracia. 
Ditatorial: Originado em uma ditadura.

Se for um movimento que vai contra o sistema, mas que ainda sim segue as leis de manifestação livre de expressão e que não está aqui para causar desordem, então ele é democrático. Se for um movimento que quer garantir direitos a todos aqueles a qual ele abrange, e não está aqui para passar por cima da justiça, porém quer pautas votadas para garantir uma melhor convivência em sociedade e não quer impor sua única e plena vontade (essa a vontade de uma única pessoa), ele não é movimento ditatorial. O que queremos no movimento feminista é igualdade entre gêneros, é respeito entre gêneros, é parceria entre gêneros, porém se um único grupo é culpado pela desordem que uma sociedade inteira causa, fica complicado. O movimento feminista ainda tenta salvar o que a sociedade está destruindo. Se estivermos radicais agora é porque alguns meios levaram a estes fins.

“O feminismo é um movimento de mulheres que odeiam os homens”: Mito ou Verdade? Mito! É claro que existem mulheres que odeiam homens, mas lembrem se ódio e amor andam de mãos dadas, e se você odeia agora é porque amou muito um dia: ódio e amor são as mesmas coisas. Não dá para saber o que se passa em cada mulher que diz odiar um homem. Mas assim como aquelas que fazem aborto não são necessariamente feministas, aquelas que odeiam homens também não são necessariamente feministas.

“O feminismo é um movimento que existe não “sei pra quê?”“: Eu também não! Nem sei o que faríamos se não existisse feminismo. Acho que ainda estaríamos cuidando de casa, filho e marido e tricotando por ai! Feminismo para quê? A menina de doze anos que foi estuprada e que apontaram dizendo que ela era culpada, não precisa de feminismo. A senhora que apanha do marido todos os dias, na frente dos filhos: não precisa de feminismo. A mulher que foi assediada no metrô, como se o corpo dela fosse público, não precisa de feminismo. Feminismo para quê? Eu nem sei!

“O feminismo é um movimento que passará (nas palavras deles é modinha)”: Tudo bem! O movimento anarquista passou? O movimento punk passou? O movimento Skinhead passou? O movimento Hippie passou? O movimento Underground passou? O movimento petista passou? O movimento tucano passou? O movimento Socialista passou? O movimento Capitalista passou? O movimento Grunge passou? O movimento ditatorial passou? O movimento democrático passou? Porque até agora, todos os que falei ainda não passaram, e se passaram estão prestes a voltar. Cuidado!

“O feminismo é um movimento que estuda Karl Marx (sim, feministas, não dá para dizer em geral, estudam um pouco de Karl Marx!)”: Todo e qualquer movimento que hoje temos no mundo estudam filósofos e sociólogos. O feminista também estuda. E não vejo problema estudando Karl Marx, afinal de contas todo mundo já estudou as ideologias de Karl. Por favor, gente!

“O feminismo é um movimento para mulheres mal amadas que precisam de “rola””: Essa eu deixo quieta...

Olha, tem muito mais de onde vieram estes. O que espero é que eles possam entender e compreender que há mais do que objetivos “simplórios” como eles querem passar e que há mais do que uma mulher lavar louça. Porque todas nós em nossas casas fazemos as tarefas que temos que fazer, para manter o ambiente limpo e não porque disseram que somos obrigadas a isso. Nós não falamos porque é besteira, mas sim porque queremos ser ouvidas, como em qualquer outro movimento. O objetivo é sermos ouvidas.

Só espero que a humanidade acorde antes que seja tarde demais.



Um comentário:

  1. Eu fico extremamente chateada quando leio comentários do tipo que você comentou aqui. Eu sou feminista sim, e sempre vejo esse tipo de coisa vazia, chamando as feministas de "feminazi", lésbicas (como se ser lésbica fosse alguma espécie de ofensa)... é tanta coisa vazia. Parece que as pessoas não entendem que feminismo não é o contrário do machismo e que o movimento feminista não quer tirar as mulheres do conforto de suas casas; o feminismo que dar a todas a oportunidade de escolher o que quer fazer. Se quer cuidar da casa, cuida, Mas se quer ter independência e tudo mais, tem que poder fazer isso.

    Já me falaram que que, por eu ser feminista, não vou arranjar namorado "porque feminista odeia homem e considera todos estupradores". Quem disse isso não percebe que, até que o homem prove o contrário, ele é um estuprador em potencial sim, porque os homens não tem de sentir medo de andar na rua de noite porque uma mulher vai assediá-lo, nem tem de ficar ouvindo cantada escrota no meio da rua.

    Eu nem sei como comecei esse comentário, só fui escrevendo mesmo. Quero dizer que adorei o seu texto, e espero que ele possa abrir os olhos de algumas pessoas. Não precisamos ter medo de ser feministas!

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